Dandara aciona STF para apurar possível fraude envolvendo terreno de data center ligado ao escândalo do Banco Master

julho 14, 2026

A deputada federal Dandara (PT/MG) encaminhou ofício urgente ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), solicitando a apuração, pela Polícia Federal, de possível conexão entre o Caso Banco Master e as operações que envolvem o terreno destinado à construção de um data center de inteligência artificial em Uberlândia (MG). O documento foi motivado por reportagem publicada pelo Intercept Brasil, que revelou uma valorização patrimonial de mais de 440% do terreno em seis anos, sem justificativa econômica aparente.

Segundo a reportagem, o terreno de 960 mil metros quadrados está registrado em nome do Fundo de Investimento Imobiliário Bacuri, administrado até meados de 2025 pela Reag Trust e, desde então, pela WNT Capital, duas gestoras que figuram em investigações conduzidas pela Polícia Federal relacionadas ao Caso Banco Master. Comprado em 2019 por R$ 14 milhões, o imóvel foi reavaliado para R$ 76 milhões ao final de 2025, segundo as demonstrações financeiras do fundo, enquanto sua avaliação fiscal na certidão de registro permanece em apenas R$ 1,78 milhão. Auditores independentes que analisaram o fundo relataram não ter recebido os laudos que sustentariam essa valorização.

A avaliação do imóvel foi atribuída à Horbia Partners Consultoria, a mesma empresa que precificou ativos da Reag e da WNT hoje sob investigação da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), e que também chancelou a controversa avaliação bilionária da Global Carbon, outro ativo ligado ao caso Master. Apesar do valor declarado de R$ 76 milhões, o terreno foi arrendado à empresa RT-One por apenas mil reais mensais, pelo prazo de 15 anos, para a instalação de um empreendimento estimado em R$ 6 bilhões. A RT-One, responsável pela execução do projeto, é uma empresa com reduzido histórico conhecido na implantação de data centers, conforme destacado pela reportagem.

No ofício, a parlamentar destaca que o arrendamento por valor economicamente incompatível com o ativo declarado, presença de gestoras já investigadas e utilização da mesma empresa avaliadora em outras operações questionadas traz um alerta e desconfiança ao caso e pede investigação sobre o caso.

“Não é no mínimo estranho, para não dizer fraudulento, que um terreno comprado em 2019 por R$ 14 milhões, ao final de 2025, esteja valendo R$ 76 milhões? Uma valorização patrimonial que supera 440%. A média de valorização do mercado imobiliário em Uberlândia é de 40% nos últimos três anos. É uma discrepância enorme”, afirmou a deputada.

Para Dandara, o caso aparenta reproduzir o mesmo modus operandi já identificado nas investigações sobre o Banco Master. “A verdade é que há indícios de eventual utilização do terreno para inflar artificialmente o patrimônio de fundos ligados às gestoras ligadas ao Master, construindo uma imagem falsa de saúde financeira e permitindo atrair investidores. Há semelhanças entre os mecanismos utilizados por Vorcaro, apurados no Caso Banco Master, para valorizar artificialmente suas carteiras de investimento e que agora está sendo usada para supervalorizar esse terreno”, disse a parlamentar, acrescentando que todo esse processo avança “sem regulamentação nacional para proteção das águas, energia e impacto de ruído e calor para a população”.

A deputada também chamou atenção para o papel da RT-One na operação. “A empresa RT-One, que instalaria o data center, se vende como uma grande multinacional, mas tem um capital minúsculo e nenhuma experiência em data center. Ao que parece, portanto, a empresa pode estar atuando como veículo intermediário na estruturação do empreendimento, circunstância que, diante dos fatos narrados pela reportagem, merece investigação”, afirmou, observando que a estratégia de usar uma empresa intermediária de pouca experiência para conduzir licenciamento, conexão de energia e negociação fundiária, enquanto a big tech por trás do investimento permanece sob sigilo. Situação semelhante foi apontada em reportagens envolvendo empreendimentos atribuídos ao TikTok e à Microsoft.

“Por toda essa história com indícios que justificam investigação sobre eventual fraude financeira é que estou oficiando o ministro André Mendonça, do STF, para que investigue a possível ligação do data center com o escândalo do Banco Master”, concluiu Dandara.

Próximos passos

No ofício protocolado, a deputada requer ao STF a abertura de investigação pela Polícia Federal para apurar a origem dos recursos empregados na aquisição do terreno, a identidade dos cotistas e beneficiários finais do Fundo Bacuri, os critérios usados para elevar a avaliação do imóvel de R$ 14 milhões para R$ 76 milhões e os vínculos entre o Fundo Bacuri, a Reag Trust, a WNT Capital, a Horbia Partners, a RT-One e demais investigados no Caso Banco Master.

O documento solicita ainda a preservação imediata de documentos físicos e eletrônicos relacionados às operações (contratos, laudos, demonstrações financeiras e registros societários) e o encaminhamento de requisições de informação ao Banco Central, à CVM, à B3, à Receita Federal, ao Coaf e ao Município de Uberlândia, além da realização de perícia contábil, financeira e imobiliária independente sobre a evolução do valor do terreno e a racionalidade econômica do arrendamento firmado com a RT-One.

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